segunda-feira, janeiro 23, 2006

Três picadas e quatro mil dias

Na primeira picada, senti um calor... puder ver a vida se esvaindo de mim, sua cor era vermelha, seu estado era liquido, sem grandes formas variadas.
O primeiro frasco iria determinar quanto tempo eu teria para ver o que ainda não vi, para dizer “eu te amo”, para sentir o cheiro da chuva, ler os livros que não li e mandar o que não me tolero a merda.

Estar naquele ambiente me assustava, a espera era grande, porém aquela demora fazia-me recordar em nostalgia o motivo pelo qual estava ali. Em vagas lembranças recordei-me das incontáveis transas, trocas de gozos e salivas. Eu me perguntava: Será que tudo aquilo valeu a pena?

Com apenas 23 anos, um vírus podia varrer todos meus desejos e conquistas que eu poderia alcançar em uma juventude esplêndida. De acordo com as pesquisas e o coquetel recentemente descoberto, meu tempo de vida estimava-se em dez anos...Tudo isso para mim era frustrante, e eu me perguntava em meio a tantos planos abortados como um feto que não vinga, Onde foi que não me cuidei?

Recordei-me de uma transa, com dois corpos ao mesmo tempo, juntos éramos em três e posso dizer que aquela foda foi maravilhosa... beijos molhados, línguas descontroladas e membros memoráveis... ahh se eu pudesse voltar no tempo. Eu o faria novamente.

Uma ponta de dor trouxe-me de volta ao consultório, a enfermeira desculpou-se. Agora o segundo frasco vazio sentia o pulsar de minha veia, ele era capaz de determinar meu tempo de vida em dias, aproximadamente quatro mil dias. Que ironia era tudo aquilo, aquela sala branca, aqueles aventais, luvas, cápsulas, agulhas... e aquele cheiro de éter.
Tudo aquilo poderia fazer parte da minha rotina nesses quatro mil dias, sentia-me condenado, sem direito algum em dividir meus medos, minhas angustias.
Peguei-me pensando em meus pais, a época de sua juventude, em que a liberdade sexual era a bandeira de jovens da década de 70. Tudo aquilo não fazia sentido, contaminar-me em pleno século XXI, com tanta informação, TV, internet, orientação sexual em escolas, faculdades... sentia-me envergonhado.

No terceiro frasco queria chorar diante das minhas impossibilidades, em apenas quatro mil dias meus cabelos poderiam cair, minha pele secaria, manchas por todo meu corpo poderiam transformar-se em chagas, meus ossos atrofiariam, eu não teria forças para andar, dores infernais iriam prolongar meu sofrimento, eu se quer teria forças para chorar... era uma guerra que tinha grandes chances para ser perdida, ou sustentada por mais algum tempo.

Depois de três picadas, eu saberia dentro de dias o resultado do prazer sem cuidado, do que o desejo descontrolado, sem pudor era capaz. O ato seduzir-se em olhares maliciosos poderia levar me para um buraco lugrúbe, sem porta de saída.

Quinze dias se passaram, a longa fila transformara-se em agonia, tudo dentro de um envelope, o cheiro de éter e álcool já não me incomodava mais, decidi familiarizar-me com aqueles aventais brancos, aquele ambiente sem vida, lençóis azuis, histórias de todos os tipos, era como se a vida e a morte tivesse início em apenas um lugar. Pêgo em pensamentos vagos, ouvi um chamado bem aconchegante, discreto e profissional de um daqueles anjos que me amparam na busca pela verdade.

Oi, você nos trouxe o resultado de seu exame?

Aparentemente calmo e conformado, ainda depositei uma esperança para aquilo tudo.

Sim, aqui está.

Vamos ver...hum?...

Tentei em eternos segundos ler todas expressões possíveis, o contrair dos músculos da testa, o olhar atendo para aquela folha de papel. Minhas mãos apertaram-se uma contra a outra. Não me contive com os segundo que viriam naquele corredor com cheiro de éter.

E então?

É...deu negativo, você está limpo.

Agradeci, ouvi tudo o que já sabia em relação ao assunto e que não praticava. Cruzei aqueles corredores, como se cruzasse o purgatório dos muitos espalhados pela cidade.
Sabia que não estava condenado, que poderia desfrutar dos prazeres da libido, agora com mais cuidado.
Mudar para que? Minha essência pedia isso, correr atrás do sentimento que chamo de amor...


Ricardo mais que Veríssimo

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