Hoje é um dia atípico na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, dia do velório do Geraldão, funcionário da casa há anos, e de certa forma querido por todos.
Motivo? Infarto.
Ao chegar aqui, me deparei com uma movimentação diferente, sussurros pelos cantos, olhos vermelhos e comentários.
O comunicado era claro: Funcionários estão liberados para o velório ao contrário dos estagiários.
Este foi um dos motivos para eu permanecer no meu lugar, além é claro detestar velórios. Lembro-me nitidamente de todos que fui e não foram poucos. O mais marcante foi da minha avó. Mãe de 14 filhos, (cá entre nós, aja disposição) foi o que mais comoveu-me, pois eu era criança, chorei muito sem entender a causa daquilo tudo.
Só anos mais tarde vim a saber que aquela avó carinhosa, era bem radical com os filhos...enfim, ela não chegou a bater o recorde do meu avô.
O velhinho morreu aos 92 anos, até ali, modéstia parte viveu em plena saúde infernizando o resto da família. Quando se irritava, falava palavrões de alto nível e em verbetes irreconhecíveis, tinha tino comercial, barganhava relógios, e se preciso entrava numa briga. Para todos os efeitos a opinião dele era a que valia. Ai daquele que discordasse.
Lembro-me que nas poucas viagens juntos, quando chegava a noite, nós morríamos de medo, pois ele parecia um fantasma, andava com um pijama clássico, arrastava os chilenos e uma usava uma touca de Papai Noel, só que branca. Por ter apenas só 10% da visão, ele entrava de sopetão nos quartos, obviamente achando que era o seu.
Morreu xingando os médicos e sua empregada. A “Princesa” como ele a chamava. (era irônico e isso eu puxei do velho), Princesa por quê logo de manhã ela chegava, fazia meia dúzias de coisinhas e passava o resto do dia deitada assistindo TV. Contudo o que era interessante era a companhia que ela fazia ao meu avô...Era bem engraçado.
Durante os últimos anos de vida do meu avô, vim a saber que o velho, quando moço, batia na esposa e colocava os filhos abaixo de C...de minhoca, além de outras mazelas...
Segundo soube, Geraldão era sozinho, sem família e provavelmente ficaria com seqüelas. Para que sofrer o resto da vida sozinho?
Por isso acredito que a morte foi mais confortante para ele. Além de ser lembrado talvez como um Santo...e assim caminha a vida.
RicardomaisqueVeríssimo
5 comentários:
Infelizmente, sabemos de coisas sobre nossos familiares que peferíamos nunca saber. Por outro lado, às vezes, isso acontece quando não temos mais tempo para guardar mágoas ou ter raiva.
Gênio forte de seu avô, irônico por chamar a empregada de princesa. Lendo isso, tive vontade de rir e é isso o que importa, as boas lembranças, ou pelo menos aquelas que valem ser lembradas.
Quanto ao Geraldão, morrer como "santo" é uma glória de todos. Que ele possa aproveitar bem!
Beijo,
eu li alguma coisa do seu blog... se eu tivesse a sua vida eu tinha me matado a algum tempo... eu nao nasci pra ter uma vida como a sua... de ler o q voce escreve eu entro em desespero... mon dieu!
Ai, Ricardo que lindo. Fiquei emcionada com este texto. É sempre muito melhor quando o amor nos faz lembrar de coisas tristes, cicatrizes fundas com uma boa dose de humor. E você conseguiu fazer isso. Obrigada pelas boas-vindas, foi o primeiro texto que eu li. E você? Conhecia o Geraldão?
O que posso dizer é que a morte é uma certeza para todos, porém quem a antecipa é um FRACO.
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