terça-feira, julho 04, 2006

Íntimos do Subconsciente

O ato de parar na frente de conhecidos e simplesmente falar na velocidade dos seus pensamentos pode ser mais revelador do que você imagina.
É como se você não coordenasse as informações e as coisas fluíssem. Palavras se repetem, gritos acontecem e os risos paralelos incomodam, e como incomodam.

Neste final de semana, nosso diretor de cenas realizou este feito com alguns atores, eu fui um deles. O exercício iniciou-se com aquecimento e muito trabalho de corpo, depois, de acordo com os nomes chamados a pessoas dirigia-se para a “boca de cena”, e desatava a falar, conforme a dificuldade o assunto era proposto pelo diretor.
Juliano, um dos atores, falou do Parque da Cidade, lugar onde fica nossa caixa preta, o “CET - teatro” e uns devaneios particulares.
Bebel, narrou suas desgraças à parte, falou de seu joelho problemático e de seu médico fanho, arrancou gargalhas, minhas em especial.
Sakamoto, atriz iniciante, deixou-se dominar pela timidez diante dos olhares, em especial do voraz diretor em desnudar-nos.
Voluntário, eu não esperei meu nome ir para a forca, falei da minha situação financeira e descarreguei metade da raiva na condição de ser universitário no Brasil.
Porém, foi Márcia quem comoveu a maioria dos que ali estavam presentes, pega de surpresa em meio a um outro exercício, ficou agitada,
falava as palavras desordenadamente.
A bela morena de 27 anos, com dificuldade em pular corda, revelou-se uma criança com poucos feitos e sonhos, os olhos arregalados faziam as pessoas pedirem em gritos mentais que a “tortura” parasse. Sentia-me constrangido por ela em vê-la intimidada.
Sob a luz branca e o olhar do diretor, Márcia falou de suas dificuldades corporais, seus 7 gatos, entre outros pensamentos escondidos no subconsciente.
O diretor pedia menos movimento, somente a fala, e nisso a agitação interna da atriz foi cessando, os pensamentos fluindo e a menina virou mulher diante de todos, recitou uma poesia de Cassiano Ricardo, além de distinguiu três tipos de pessoas, num livro que leu de Sergio Britto, as visuais, as auditivas e a racional. Ela classificou-se auditiva.


Tudo isso me fez perceber o quanto vulneráveis somos diante dos outros e que o espelho nem sempre reflete o que somos ou pensamos...
Ouvir a própria voz em pensamentos soltos é realmente assustador, é como se descolar do corpo, e o corpo fosse somente a carcaça. O que somos vai além dos cinco sentidos. Tudo desaparece e o subconsciente espirra as informações e ações nossas de cada dia, Como marionetes por todos os lados, manipulados...
Ser ator implica em saber colocar e expurgar isso em diversas formas, é saber quando parar, quando falar, quando ouvir e quando sentir. É conhecer a ação fragmentada no íntimo do nosso subconsciente. O auto-controle se faz dessa prática, mesmo que assustadora. Experimente!
" Se um poeta consegue expressar a sua infelicidade com toda a felicidade, como é que poderá ser infeliz?"(Mário Quintana).

RicardomaisqueVerissimo




Um comentário:

André Scient disse...

Não consigo imagianr a Marcia se empolando no meio de vcs, mas onsigo visualizar ela se tornando mulher...
A verdade é essa mesma, ver-nos ou ouvirmos é algo que não esperamos, faamos e nos arrumomas pros outros naum pra nós...
A algum tempo começei uma oficina intima comigo mesmo de trabalhar minha imagem, sendo que antes ao olhar ao espelho eu naum me via nele. Via apenas um estranho, uma cara conhecida, o meu rosto, que na minha antiga opinião não era parecido com minha persnalidade.
Via-me em filmagens e fotoscomo um parasita, um ser torto e estranho, sem caminhos, meio que perdido...
Mas hoje trabalhei isso melhor em mim mesmo, olho no espelho e me vejo, fico hora olhando minhas fotos e me into ali.
Não sou mais um estranho pra mim mesmo.
Abraço Verissimo.