[episódio3]
Os dias corriam enquanto eu em paralelo buscava um lugar para morar, a rotina resumia-se em acordar + café + metrô + anúncios + e-mail`s + telefonemas + visitas em republicas + conversas + analises + frustrações. Até que um dia a rotina deixou de ser rotina...
Os dias corriam enquanto eu em paralelo buscava um lugar para morar, a rotina resumia-se em acordar + café + metrô + anúncios + e-mail`s + telefonemas + visitas em republicas + conversas + analises + frustrações. Até que um dia a rotina deixou de ser rotina...
Em meio ao transito e céu nublado encontrei-me numa quinta-feira, a tarde parado entre o cruzamento da avenida Duque de Caxias com a rua Rêgo Freitas, endereço no qual faria mais visitas de rotinas, por um momento pensei “Somos seres repetitivos” e como num dejavu caminhei em direção a rua Rêgo Freitas, tendo como norte a igreja Consolação, com sua arquitetura barroca em mais de 200 anos de história, que ironicamente passava falsa impressão de paz ao centro conturbado de São Paulo.
Caminhando cheguei ao fim da rua, tendo a minha frente o único sobrado que resistiu ao surto de prédios na cidade, com uma velha pintura em amarelo ouro e branco e um jardim mal cuidado, conferi o número da casa com o endereço anotado no papel.
[Campainha]
- Pois não?
- Oi, vim ver a vaga disponível na republica.
- Só um minuto, vou abrir o portão...
Fui recebido por uma espécie de governanta da casa; de estatura média, um pouco acima do peso, cabelos tingidos no tom loiro com raízes pretas, sobrancelhas expressivas, batom vermelho, trajando roupas de lycra, Marcia convidou-me para entrar e disse que estava atrasada para aula de ginástica.
Em poucos minutos fui apresentado a casa, logo na entrada percebi um bom espaço interior, com uma ampla sala de estar com vista para o movimento urbano da rua, porém, ao subir as escadas com carpete e luzes vermelhas, o lugar apresentou – se escuro e caótico... Quartos pequenos, cozinha em processo de reforma e pouca infra-estrutura... A partir dali, enquanto Marcia explicava ou tentava explicar o esquema de organização da casa, contei os ponteiros do relógio correndo, até que me vi livre para visitar a segunda opção de republica na mesma rua, a poucos metros do sobrado envelhecido, desta vez era um apartamento.
[Campainha]
- Oi?
- Boa tarde, vim visitar a republica para ver a vaga disponível.
- Vou liberar a entrada, só me aguardar...
Sem muita motivação, após uma semana de procura, fui recebido por Marlene, uma espécie de governanta da republica, de estatura média, magra, cabelos em tom ruivo e jeito ágil, cuidava três vezes por semana da organização da “casa”. Ao entrar no apartamento pude perceber ambientes limpos, dois banheiros, cômodos amplos e organizados. Continuando aquele tipo de inspeção pude perceber que é possível decifrar características de personalidade por meio de objetos ou pelo menos tentar... Os quartos eram organizados a moda de seus habitantes, como todos moradores estavam fora de casa durante minha visita, procurei reparar nos objetos particulares de cada um.
Em uma das beliches a cama debaixo tinha uma cortina, talvez representasse uma pessoa tímida, na outra cama havia livros e papeis amontoados e um incensário, talvez uma pessoa caótica... Já no outro quarto, numa estante com muitas revistas de moda, perfumes, cd`s e DVD`s, estava Nossa Senhora, conhecida como padroeira, mãe de todas as mães e Ganesha, um deus hindu que traz prosperidade, paz e remove obstáculos.
- Quando posso trazer minhas coisas?
Enfim, sai do prédio com a certeza de que havia encontrado o lugar certo para morar, pelo menos por um bom tempo até as coisas se acertarem.
Caminhando pelo centro de São Paulo, alguns pensamentos repousaram sobre minha mente: Será que vai dar certo? Acho que você não vai conseguir! É difícil, o que você vai fazer lá?
Franzindo a testa com perguntas e incertezas que ouvi de outras pessoas sobre me mudar para uma cidade onde há oportunidades, porém há mais dificuldades do que oportunidades, percebi que estava deixar influenciar-me por um negativismo que não iriam me ajudar naquele momento. Mas como impedir que influências externas perturbem o equilíbrio interior ao qual eu buscava e como filtrar essas influências que me aborreciam?
Talvez a figura de Ganesha, com Maria numa rua em frente a uma igreja barroca não respondesse isso de forma coerente, mas algo esses elementos transmitiam... Era possível sim, era possível buscar o equilíbrio entre tudo, olhar e contemplar o universo, sua diversidade, afinal, somos apenas mais um grão de areia nessa imensidão... Só vai movimentar-se quem quiser... E eu quero...
Naquela mesma semana já estava morando na minha nova casa e dividindo quarto com outras pessoas, agora era partir para a próxima etapa. Um emprego...
Um comentário:
e assim a vida segue. etapa por etapa.
Postar um comentário