Assinei um contrato com o Diabo... Sabe quando você recebe uma daquelas ofertas onde o beneficiado é você?... Pois é, uma nuvem de ambição, desejo e sobretudo ansiedade desenfreada, cobriu minhas vistas e assim fui ludibriado.
Tudo começou com a divulgação de um novo curso para formação de atores como oportunidade única, a notícia veio por uma amiga, que já havia assinado sua sentença de escravidão. Então, atraído por uma falsa promessa, fui até a sede do dito cujo, uma pequena sala de escritório localizada no bairro Tatuapé. A fachada na cor laranja deixava a entrada estreita mais evidênte, as escadas e pisos eram forrados com carpete barato na cor vermelho sangue. Dentro do escritório, atrás de uma mesa retangular e larga havia uma atendente de estatura média, meia idade, óculos quadrados e de armação grossa, ela tinha cabelos grisalhos... E, sem propriedade das palavras, ela desferiu um discurso ensaiado com olhos nada convincentes.
Depois de uma explanação do contrato que eu estaria assinando e das minhas responsabilidades como aluno, eu recebi o formulário para colocar minha assinatura... De caneta em punho, uma voz interior pedia que eu não assinasse, enquanto outra voz sussurrava sobre a perda de uma ótima oportunidade... entre uma voz e outra, eu vacilei, pensei e questionei a mim mesmo enquanto pude ouvir claramente a lavagem cerebral sendo feita numa saleta improvisada ao lado...
E nesta saleta, somente uma voz se destacava... a de Lúcifer, onde a explanação feita por ele, atingia aos desejos íntimos dos ouvintes, que também o viam em carne e osso... No auge do seu momento, do seu monólogo, ele articulou em palavras empoladas dizendo formar “homens de teatro”. Segundo ele, seu método revolucionário já colocava atores aprendizes no mercado, barganhando o corpo e a alma por miseras cadeiras vendidas... Um verdadeiro pão e circo.
Foi neste momento, que voltei para dentro do meu corpo, olhei fixamente para a atendente e destilei diferentes perguntas procurando extrair algo nas entrelinhas...
Faremos de você um homem de teatro! Nós queremos sua alma... foi o que ela me disse de uma maneira doce, com um sorriso no canto dos lábios.
E mesmo assim, a nuvem da ignorância e insensatez se apossou de mim, como um robô eu assinei meu nome naquela folha de papel, que segundos depois dissipou-se para dentro de uma gaveta qualquer deque cubículo...Ao descer as escadas com o olhar voltado para baixo, vendo meu sangue agora impregnado naquele tapete de carpete barato, a voz da razão voltou a ecoar em minha cabeça dizendo... Você errou, você se ferrou, sua alma está condenada!.
Bem, a noite chegou e certo de que tinha feito a coisa errada, me enchi de coragem e decidi voltar na manhã seguinte, subir as escadas de sangue, invadir o escritório e requerer minha alma de volta... E assim, eu fiz...
Cara a cara com Lúcifer, tive que renegociar, pois uma vez o contrato assinao, ele jamais devolveria minha alma sem ter nada em troca. Por que faria isso? Um contrato é sempre um contrato, você não paga nada para assinar, porém paga ou barganha algo para que ele seja anulado e rasgado...
E assim, voltei a ser um homem livre... porém, algo de mim ficou naquele escritório, pode ter certeza que sim...
2 comentários:
Estou numa fase refratária após meses de dezenas de contratos assinados... contratos que envolviam dinheiro e interesses, mas também contratos interpessoais e sociais que envolvem sentimentos e expectativas e que quebram-se em decepções... Eu ODEIO contratos! E é esse o período refratário...
Você livrou-se... mas uma parte de você terá ficado naquele escritório? Está livre? "O maior tesouro de um homem é o espírito sem limites".
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