terça-feira, janeiro 24, 2012

Fade in_Town

[episódio6]



Muitas coisas aconteceram desde minha vinda para São Paulo. Fiz novos amigos, conheci  lugares incríveis, enfrentei desafios, sobrecarreguei às 24 horas do meu dia... Até que tropecei e cai no fundo do poço. Agora encontro-me escalando as paredes de volta a superfície...
Tudo aconteceu muito rápido e como um gênio que leva de volta para a lâmpada seus desejos realizados, São Paulo me levou uma porção de coisas...Meu tempo com a minha mãe, meus amigos, meu trabalho, meu quarto, meus livros e um grande amor... Quando notei o vazio dentro de mim já era fundo demais, eu não saiba mais como preenchê-lo... Só percebi tudo isso quando já estava preso nessa cidade que suga e que alimenta ao mesmo tempo.
Meu emprego no call Center durou o suficiente para eu perceber que aquele não era meu lugar, com três meses eu pedi demissão com a desculpa de uma viagem programada para o Chile. E de fato estava programada...
A viagem foi uma dessas loucuras que se faz a dois, quando tudo vai bem... Aprendi que loucuras são válidas, mas por segurança nunca estique o prazo demais, pois muita coisa muda e quando a data chega, tudo pode estar diferente. E assim foi... Já separado, eu tive que reprogramar a ordem das coisas, o que seria romance, tornou-se trabalho. O bom é que eu não estaria sozinho, Dani, uma amiga ia embarcar junto com o ex-casal para o azar dela, pois eu pressentia que ela ficaria no meio do fogo cruzado. Era temporada de inverno, eu e ela atores medíocres, sem muita grana para gastar, enquanto ele, parecia um projeto de playboy mal fadado, a fim de curtir todas montanhas recheadas de neve.

Após três meses sem vê-lo, estávamos nos dois no aeroporto de Guarulhos, o que aliviava um certo estranhamento era a presença de Dani, que entre conversas e alfinetadas se desdobrava no jogo de cintura. Já eu, me sentia incomodado com a presença dele, mesmo sem entender o porquê... No check-in ficamos sabendo que um vulcão em Pucon entrou em atividade e por conta das cinzas que causam má visibilidade aos pilotos a viagem teria que ser reprogramada. Alívio? Talvez, pois os ânimos não eram dos melhores. Tive que passar o dia ouvindo as maravilhosas histórias do atual namorado do meu ex... Ironia do destino? Em alguns momentos eu temi que sim, mas tanta propaganda gratuita cheirava insatisfação e provocação a minha presença... Bem, de volta para a casa reprogramamos a viagem para três dias depois, e no ato de remarcar às passagens, ele resolveu ficar para trás com a desculpa de que não havia mais lugares disponíveis, iríamos somente eu e Dani... E como quem é pego de surpresa, eu mesmo sem querer fiquei chateado...Era noite de sábado, concluí que deveria pensar nessas inquietações buscando algumas respostas...

Eu nunca achei que desse para conhecer tanto uma pessoa pela ausência dela, eu vi que dá...Fazia tempo que eu não me sentia tão pouco órfão de mim, de alguém que se importasse comigo, era como se eu tivesse ligado no piloto automático desde o término daquele namoro. E agora, ao reencontrá-lo, muitos sentimentos voltavam à tona... Era um merda viver tudo aquilo justo numa condição onde eu não poderia cobrar nada... Mas... teimoso, eu sabia que  de alguma maneira não poderia deixar aquilo me sufocar, queria viajar sem essa bagagem extra, foi o que fiz...
Era noite de domingo, véspera da minha viagem com Dani, pedi para conversar e tentar esclarecer o que ainda era uma nuvem escura... Entre quatro paredes expus o que sentia... Eu ainda o amava e planejando uma fuga disse sentimento, mergulhei de cabeça no trabalho, nos estudos e assim abafei sua ausência... Mas todo mergulho nos leva ao fundo de algo...Comigo não foi diferente, talvez o lado bom era saber passar por cima do orgulho e dizer o que sentia. Assim o fiz...choramos, trocamos palavras afetuosas e a sensação de que algo ficou para trás mas ainda poderia ser resgatado era nítida...

Na manhã seguinte eu e Dani embarcamos para o Chile. Com muitas expectativas e sem muito conhecimento, iríamos encarar dez dias de expedição por lugares desconhecidos. Na bagagem, além de roupas, levávamos nossos bonecos e figurinos... Como planejei, a viagem tornou-se trabalho, com proeza e muita cara de pau, fechei três apresentações na cidade de Santiago... Enfim, a viagem prometia...Pela janela do avião a cidade de São Paulo ficava cada vez menor e com ela meus problemas, meus medos, minha angustias... A distância era como um tratado de paz...Eu queria que tudo se resolvesse por sí só... Mas acho que  isso é querer um pouco demais...

Um comentário:

Patrick disse...

Oi...